O Drama do Trauma

Originalmente publicado em 25 de dezembro de 2012.

Tudo parecia muito normal, era 21 de dezembro, o mesmo "bom dia", no mesmo horário. Na hora do almoço alguma coisa havia mudado por ali, a casa toda fechada, tudo em absoluto silêncio. Imaginei que não tinha ninguém, segui minha rotina. Voltei pro trabalho e recebi uma ligação, fui informada que alguma coisa estava errada, na verdade estava como sempre acontecia em dias de recaída. Não me preocupei muito, a noite quando voltei pra casa o silêncio ainda pairava. Comecei a achar muito estranho, mas mesmo assim não me preocupei.

No dia seguinte havia silêncio novamente, então começou a ficar mais estranho, liguei de manhã e soube que ela não havia saído da cama desde a manhã do dia anterior e que por cinco minutos havia ido à cozinha e dito que as preparações para o natal deveriam ser canceladas. Não fui almoçar em casa, precisava comprar os presentes para o natal, acabei nem comprando porque não sabia se realmente seria necessário. Almocei, entrei rapidamente em algumas lojas, não comprei nada, estava atormentada com a ideia da recaída, e com a indiferença de alguns. Voltei pra empresa, liguei novamente, e soube que ainda estava na cama, questionei e a indiferença cortou meu coração, me sentia indignada e impotente. Se eu mandasse alguém ficar lá, teria alguém pra ir, mas só porque eu mandei, estava esperando atitude, iniciativa. 

A única coisa que não saía da minha cabeça era "e se fosse eu?" liguei mais uma vez, e a gota d'água caiu, desabei. Como era possível que só eu estivesse vendo o que estava acontecendo? Seria possível que tudo isso fosse exagero? Minha mente estava atordoada sem motivos? Comecei a pensar que talvez era eu quem precisava de ajuda. Por outro lado passei a analisar de forma mais racional e tive a confirmação de que a situação era grave mesmo.

Saí do trabalho, voltei pra casa sem avisar ninguém, entrei no quarto e lá estava ela, imóvel em sono profundo, sentei na beirada da cama, ela pareceu tentar despertar, olhou pra mim meio sem saber o que estava acontecendo. Perguntei o que havia acontecido, ela nem pôde responder, não tinha forças para movimentar a língua, tentou novamente e me disse o que tinha feito. Eu já imaginava, mas não passou pela minha cabeça que fosse tão grave. Deitei ao lado dela, e disse que iria ficar ali até que ela levantasse. Não era ela, meu coração estava dilacerado pela ideia de não encontrar a pessoa que eu conhecia, não havia nenhum traço dela, chorei silenciosa e amargamente. Dei a ela um pouco de água, e ela começou a se esforçar mais para falar, me contou lentamente o que havia acontecido, era exatamente o que eu imaginava.

As coisas foram lentamente sendo reordenadas, fiz algumas intervenções, tentei fazer o melhor e tudo que estava ao meu alcance para impedir uma tragédia ainda maior. 

Hoje, 25 de dezembro, tenho a sensação que tudo não passou de um sonho, que o desespero não existiu e que vai ficar tudo bem.

Já vivi inúmeras situações traumáticas, mas hoje aos 25 anos percebo que cada uma delas teve papel importante na formação do meu eu, e devo admitir que mesmo tendo sido desesperador passar por tudo aquilo não me abalo ao lembrar, porque entendo que aprendi, cresci e me preparei pra algo pior que possa acontecer.

Apesar da conotação negativa associada ao trauma, sendo eu leiga no assunto, só posso concluir que Friedrich Nietzsche tinha razão, "Aquilo que não me mata, só me fortalece". E desenvolvo um sentimento de gratidão, ao notar o quanto me torno mais consciente de quem sou e qual o meu papel em prol dos meus semelhantes, quando passo por situações traumáticas e sobrevivo!

Comentários

  1. Um texto dinâmico, porem melancólico. O final traçado de forma coerente com seu ponto de vista. Mas faltou a finalização para o nosso ponto de vista. Você nos deu um drama denso, carregado e nos deixou com agua da boca de saber quem é a personagem e o que aconteceu com ela! Parabéns !

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    1. Querida Carmen,

      Primeiramente preciso dizer que é um imenso prazer saber que vc tem visto meu blog! Me sinto lisonjeada! Agradeço ainda mais pelo seu comentário, o retorno é importantíssimo para mim. Gosto de saber que estimulei os leitores, seja emocionando, deixando a curiosidade no ar, fazendo rir... enfim, fique a vontade para deixar sua opinião SEMPRE!!!

      Um grande beijo

      Aline

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