Me declaro desenraizada (síndrome de Ulisses)

Fui apresentada ao termo castellano desarraigo por minha querida amiga Mirelis Morales. Ambas morando em Lima, longe de casa, ela da Venezuela, eu do Brasil. Num dia daqueles em que me sentia fora de lugar, algo extraviada, desejando não estar ali, mas sem saber onde queria estar, foi nesse dia que ela me falou a primeira vez sobre o que, em português traduzimos como desenraizamento, ou luto migratório. 





O que dizem os especialistas?

O desenraizamento ou síndrome do desenraizamento, ou ainda síndrome de Ulisses, de acordo com Joseba Achotegui, professor e secretário geral da seção de Psiquiatria Transcultural da Associação Mundial de Psiquiatria, em entrevista para o UOL Notícias, é "um quadro de estresse muito intenso ligado a fatores específicos relacionados à migração, que são basicamente a solidão forçada, não ter chances de crescimento no país de acolhida, submeter-se a condições difíceis de sobrevivência" e muitas vezes é confundido com a depressão, porém a síndrome afeta pessoas sãs "mas que apresentam certos sintomas, como problemas para dormir, dores de cabeça, nervosismo e tristeza".

Joseba diz algo importante, "minha teoria é que a maioria deles (imigrantes) é forte, capaz e apesar de viver em condições extremas, não ficam doentes, mas desenvolvem um quadro reativo a esse estresse crônico", e tenho que confessar que ler essa parte da entrevista me deixa um pouco mais tranquila. 

De forma simples, o desenraizamento acontece quando somos expostos à nova cultura, novos amigos, novo ambiente, precisamos mudar para nos encaixar na nova realidade. 


O que isso tem a ver comigo?

No meu caso o processo começou há muitos anos. Vou te explicar através de uma lista:

  • Aos 4 anos - mudamos da cidade de São Paulo para Nova Andradina no interior do Mato Grosso do Sul (escola 1);
  • Aos 7 anos - voltamos para São Paulo para a casa dos meus avós na Vila Medeiros (escola 2);
  • Aos 8 anos - mudamos para o bairro Parque de Edu Chaves (escola 3);
  • Aos 9 anos - mudamos para o bairro Ermelino Matarazzo (escola 4)
  • Aos 11 anos - mudamos para o bairro São Miguel Paulista (escola 5);
  • Aos 12 anos - mudei de escola por assuntos financeiros (escola 6);
  • Aos 13 anos - mudei de escola por questões de distância (escola 7);
  • Aos 14 anos - mudei de escola porque pedi uma bolsa de estudos (escola 8).
Cada vez que chegava a uma escola nova, tinha que enfrentar um turbilhão de sentimentos, me acostumar à cultura daquele novo ambiente e quando eu estava tentando fazer parte daquele lugar, tinha que recomeçar em outro. As coisas se tranquilizaram entre meus 19 e 25 anos, mas daí decidi viver uma aventura em outro país, e novamente aquele turbilhão sentimentos voltou. Nem sempre os sentimentos são de todo ruins, o que é ruim mesmo é sentir que não tenho amigos com quem vivi toda a infância.


Consequências de tantas mudanças

Tenho sempre a sensação que em algum momento vou mudar, deixar os amigos, então não me apego, os amo profundamente, mas não me apego. Agora que voltei para o Brasil, meus amigos estão ocupados com suas vidas e não faço mais parte dela, e os amigos peruanos estão levando a vida e também não faço parte dela, me sinto solitária mesmo estando rodeada de pessoas, mas tudo isso consigo superar. O que me desestabiliza é a necessidade de estar em outro lugar, qualquer lugar, conhecer mais pessoas, parece um vício.

Só quem passa por isso conseguirá entender, mas sempre tem gente dizendo "você quer ir embora porque quer fugir de algo", e isso definitivamente não ajuda. Todos os dias penso em estar em outro lugar e quando não posso programar uma viagem me sinto frustrada. Quero ir, mesmo que seja para um curso de um mês, uma visita familiar, um passeio turístico, mesmo que seja com data pra voltar, só não quero ficar num lugar ao qual sinto que não pertenço.


Quando terei raízes?

Tenho sonhos, gostaria de ter minha família, de ter o meu próprio círculo, e sinto que essa pode ser a chave para começar a pertencer, sentir que sou parte de algo e pode ser que deixe de sentir vontade de ir. Gostaria de ser voluntaria em algum projeto de ajuda humanitária, viver para servir, talvez essa também seja uma chave para voltar a pertencer, me ocupar da necessidade dos outros. Gostaria de finalmente poder estudar o que me apaixona, mudar de profissão, trabalhar naquilo que sempre sonhei, pode ser que seja uma chave. Acho que existem algumas possibilidades, e estou fazendo o meu melhor para encontrar a chave, porque quero pertencer, quero desejar ficar.



Aline Piologro

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